Lendo mulheres

Pouco mais de um ano atrás eu estava tranquilamente navegando na internet quando me deparei pela primeira vez com a hashtag Leia Mulheres (#leiamulheres) e todo movimento que existe por trás dela. Fiquei curiosa e comecei a acompanhar alguns comentários e textos explicando do que se tratava.

Para quem não conhece, o Leia Mulheres começou em 2014 quando a escritora e ilustradora Joana Walsh criou a hashtag #readwomen2014 para incentivar a leitura de obras escritas por mulheres. No Brasil, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques decidiram transformar a ideia em um clube de leitura com encontros mensais. Mas adivinhem só?! A ideia deu tão certo que virou um projeto com site, parcerias (a mais recente foi com a Garimpo Clube do Livro o que permitiu criar uma versão do clube para assinantes) e encontros espalhados por cidades de 20 estados brasileiros e contando.

Nunca fui para um encontro do Leia Mulheres, apesar de ter um aqui na minha cidade (momento da vergonha nada alheia), mas acompanhar as postagens associadas a esse projeto mudou meu jeito de me relacionar com a literatura e transformou para sempre minha estante e minha lista de leitura.

Primeiro foi o choque de constatar que de tudo que eu tinha lido – e eu já li coisa pra caralho – menos de um terço (numa contagem otimista) havia sido escrito por mulheres, ou seja, a minha metade da humanidade habitava muito pouco a minha estante.

Depois veio a inquietação e um leve pânico. Inquietação de não saber por onde começar a mudar esse desequilíbrio. Pânico de pensar: “E se eu não gostar dos textos delas? E se elas não forem tão boas assim?” Aqui eu digo “Olá!” para o nosso velho companheiro: o machismo. Ainda bem que dou cada vez menos atenção as coisas estúpidas que ele fala.

Comecei a organizar uma lista de leitura com escritoras a partir de postagens e resenhas publicados tanto pelo Leia Mulheres como em outros blogs e sites. Comecei lendo Quarto de despejo: diário de uma favelada, da Carolina Maria de Jesus, e desde então tem sido só ladeira acima. Passei a ler um livro escrito por mulheres depois do outro e o que no começo era um esforço deliberado para equilibrar minha lista de leitura, hoje é um prazer do qual eu não consigo mais abrir mão.

Carolina de Jesus tem um texto cru que corta como faca. Margaret Atwood constrói distopias como poucos. Aline Valek mostra o quanto as mulheres ainda tem pra escrever. Chimamanda é dona da porra toda. Angela Davis joga verdades na nossa cara. Conceição Evaristo me fez chorar a cada página. Jarid Arraes traz a voz feminina ao cordel. Ursula Le Guin e Roquia Sakhawat Hussain mostram que ficção científica não é coisa [só] de homem. Giovana Madalosso fez eu me lembrar porque amo contos. Rosa Montero me arrancou gostosas gargalhadas. Svetlana Aleksiévitch me mostrou um outro lado da guerra. Clarice Lispector e Jane Austen foram deliciosos reencontros… E que bom que agora, além delas, eu tenho tantas outras escritoras incríveis com quem me reencontrar.

Poderia continuar essa lista por várias linhas, mas vou começar a me encaminhar pro fim.

Ler obras escritas, nos mais variados formatos e períodos, por mulheres tão diferentes expandiu meu mundo de um jeito único. Hoje ele é mais vivo, mais bonito e muito mais rico. É como se uma venda tivesse sido tirada dos meus olhos. Nada melhor do que reavivar a paixão pela palavra escrita através do trabalho de mulheres tão talentosas.

vendados
Chega uma hora que a gente percebe a venda que cobre nossos olhos e resolve se livrar dela.

Se chegou até aqui deve está com a língua coçando para me perguntar “Ah, então, tudo que mulheres escrevem é bom? É isso que você está dizendo, Izabel?” E minha resposta é: não. Mas de tudo que eu li escrito por elas posso recomendar tranquilamente uns 98% e também posso afirmar que boa parte desses livros não está na categoria do bom, mas do excelente. É literatura de primeira qualidade e merece sua atenção e seu tempo de leitura.

Assim como a colunista do El País, María Barrios, desde que passei a priorizar a leitura de obras escritas por mulheres eu “não sinto que esteja renunciando a algo, mas sim que se abriu diante de mim um panorama totalmente novo que me surpreende a cada dia.” O choque inicial foi substituído por prazer e aprendizado e agora eu não consigo imaginar minha lista de leitura sem os ecos das vozes de todas as mulheres que insistem em escrever apesar do mundo quase nunca querer lhes dar ouvidos.

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4 comentários sobre “Lendo mulheres

  1. Oi!
    Faz uma lista aqui das paradas que cê leu.
    Quero entrar nessa também, pq, pensando bem, cara tenho muita pouca coisa relacionada a literatura escrita por mulheres, e tipo, “uoti?”, não pode!!! Tô louca pra ler Americanah, da Chiamamanda, mas enfim, se puder colocar algumas referências do que tu já leu, minha pessoa agradece.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Patricia!

      A gente não se toca como ler pouco conteúdo por mulheres até que para pra pensar nisso.

      Então aqui um top 5 (que não tem só 5 livros)

      Americanah, da Chimamanda (Hibisco roxo e Sejamos todos feministas são ótimos também, mas tenho uma carinho por Americanah)
      O conto da Aia, de Margareth Atwood (A mulher revolucionou a ficção em língua inglesa, então…)
      Olhos d’água, da Conceição Evaristo (Uma das maiores escritoras negras que esse país já teve e que vai tá na bienal do Ceará dia 21)
      As águas vivas não sabem de si, da Aline Valek (Aline é multi talentosa. Além de escrever, desenha que é uma beleza. Ela tem um blog, newsletter e uma zine muito boa.)
      Quarto de despejo, Carolina de Jesus (Foi o primeiro livro que li depois que ingressei no mundo do #LeiaMulheres. A escrita da Carolina corta feito faca)

      Bônus: Minha leitura mais recente foi “Lendo Lolita em Teerã” e foi uma leitura bem fluída. Escrita boa derruba as distâncias e Azar Nafisi me transportou pro Irã.

      Se você tiver pelas mídias sociais, acompanha o instagram do Leia Mulheres porque dá pra ficar sabendo o que vai ser lido em todos os encontros do país e aumentar a lista. Se tiver Skoob acompanha meu perfil por lá.
      Abraço e obrigada pela visita! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

      • Eita que massa! Que lista linda <3. Vou pedir todos esses de presente. É realmente louco quando cê para pra pensar que a maioria do que você lê, apesar de maravilhoso, é escrito apenas por homens. A gente acaba sendo meio que machista (não sei se essa é a palavra correta) sem querer, não só apenas com relação a isso, mas a outras coisas que fazem pensar. Bem louco isso. Estou relapsa com a leitura, efeito do trabalho, faculdade entre outros, mas quero dar um up, e acho que era esse up, de ler mulheres, sabe, que faltava. Vou procurar o insta, pra acompanhar melhor e vou sim, procurar seu perfil no skoob <3.
        Obrigada por responder!!
        Há braços!!

        Curtido por 1 pessoa

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